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Escrever uma tese é montar um quebra-cabeça sem fim: no início temos apenas uma noção, depois vai-se buscando peças ora na pesquisa de campo, ora na literatura. Às vezes parece que chegamos a um beco sem saída,  precisamos de um tempo, mas quem consegue desistir de um  bom quebra-cabeça?

Realizar um trabalho científico é,  a priori, uma atividade racional, livre de emoções. Ou deveria ser, ou poderia ser, ou até é para alguns.

O fato é que, para mim, está carregada de sentimentos. Cada frase, cada palavra, cada análise carrega um desejo de fazer o melhor; de escolher a melhor forma de tratamento, de comunicação, de apresentação.

Por isso o esforço redobrado para reconhecer um erro, um equívoco: além do retrabalho necessário, há o sentimento de perda – da relação construída com o objeto, do texto cuidadosamente edificado – e de imposição de um outro – uma outra análise, uma outra redação. Você já construiu uma relação de carinho e cumplicidade com o tema “assinatura de manifestos”, mas o tratamento dos dados estava equivocado e a “conscientização de cidadãos” se impõe no lugar do primeiro. Então, tenho um dia para me desapaixonar do primeiro e, pelo menos, me relacionar com o segundo!

E nem estou falando da banca… em que vão criticar tudo e nem vou poder dizer: “olha aqui, vá cuidar da sua ´participação em discussões´ que dessa aqui conheço eu!”

Uma tese fica pelo menos 4 anos com a gente, dia e noite, sábado a noite e domingo pela manhã; dormimos juntas e às vezes a respingo com creme dental; conheço cada uma de suas vírgulas, mas ela mais que me conhece, me denuncia, expõe minhas fraquezas e meus limites.

Sim, minha linda, mas agora vou ter de cortar um pedaço seu e reconstruir em cima. Saiba que dói mais em mim…

Este também é o título de uma das obras que, na minha humilde opinião, melhor ilustram a formação do gaúcho. O tempo é um elemento implacável nessa constituição, principalmente para as mulheres que durante gerações viram seus maridos, namorados e filhos irem para guerras. A paz (ainda questionável) é recente para este pedaço de terra chamado Rio Grande do Sul que esteve às voltas com armas durante cerca de três séculos. O que significaria o tempo para quem não sabe o quanto tem de esperar? Quanto é muito tempo? Cinco meses é pouco tempo para terminar uma tese? E para esperar por quem se ama? O tempo ficou entranhado na sina das gaúchas…

Nossas antepassadas ficavam a ouvir o vento, o minuano, que no inverno assobia pelos pampas. O vento viaja, traz notícias, conta histórias. Hoje vamos para a Internet para conhecê-las. Mas num período sem TV, sem telefone, sem correio, as mulheres sabiam ouvir o vento. E quem melhor que o vento para trazer um sussurro de amor? Não, a Internet não te emaranha os cabelos como o faz um amante, mas o vento… o vento te envolve, acaricia e traz palavras de longe…

  Nenhum homem é uma ilha… O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha,  e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, reside quase toda a angústia de existir.

O Tempo e o Vento – O Arquipélogo I, pág. 219

Uma vez assisti a um filme de terror no qual a imagem da moderna decoração de uma sala de estar era substituída, quando olhada de relance, por objetos de tortura que estavam originalmente naquele espaço… bem como os torturados.

Às vezes acho que a vida tem um pouco disso… trocamos o corte de cabelo, a mobília da casa, nos ocupamos com os problemas do dia-a-dia na tentativa de não ver nossos fantasmas, nossos erros, nossos tormentos, mas eles continuam lá.

Deve ser por isso que não gosto de filmes de terror. Eles só fazem lembrar como a vida pode ser muito pior.

Na humilde casa em que eu morava no início da minha vida escolar, eu não tinha um quarto (dormia na sala), mas minha mãe teve o discernimento de separar um espaço na sua estante da cozinha para eu guardar minhas coisas da escola. Então, havia um quadrado de cerca de 50cm x 40cm que era para meus papeis. Acima estavam louças, panelas e copos, mas lembro como hoje como me senti importante com minha primeira escrivaninha. É provável que só eu a considere assim, já que o conceito comum de escrivaninha relaciona-se a um móvel específico. Bem, o meu conceito tem parâmetros mais afetivos que lógicos. Depois, em torno dos 10 anos ganhei uma escrivaninha. Não era exatamente a que eu havia escolhido na loja, mas era a que minha mãe podia pagar. Fiquei igualmente feliz, afinal agora além de ser um espaço para guardar meu material da escola também tinha uma bancada para escrever! Nessa escrivaninha produzi meu primeiro trabalho escolar (tenho-o guardado), sobre os símbolos nacionais. Modéstia a parte, bem feitinho para uma criança de 10 anos. Essa escrivaninha me acompanhou durante todo o primeiro e segundo graus. Depois teve a escrivaninha da casa do estudante (CEUFRGS), da qual também tenho boas lembranças, embora eu usasse muito a biblioteca para estudar naquela época. E também houve as mesas dos locais de trabalho. Mas aí já não eram escrivaninhas. É diferente… As escrivaninhas desenvolvem uma relação de cumplicidade… talvez porque são elas que, afinal, estão conosco às 3h da madruga fazendo “aquele” trabalho. Depois comprei uma escrivaninha em Salvador, quando fui fazer o mestrado. Lembro que quando terminei de montá-la (sim, eu mesma a montei com o folheto de instruções!), me apresentei e disse “então, companheira, precisamos produzir uma dissertação, conto contigo!” E ela não me decepcionou! Mas quando mudei de casa, despedi-me, agradeci e disse que ela seria mais útil para outra pessoa. Daí, comprei uma grandona, pensando na papelada toda do doutorado… Ainda temos uma história por construir. Depois, em Aveiro, imaginem a minha surpresa quando entro no meu novo quarto e me deparo com aquela escrivaninha dos 10 anos que minha mãe não pode comprar-me!!! Sim, é igualzinha. Pelo menos, igual a que eu tinha memorizado, que eu tinha namorado na loja da Rua São José em Guaíba! Bom, há quem diga que a mente da gente fica rastreando caminhos para satisfazer nossos desejos. Se é assim, tadinha, dei um trabalho pra minha que demorou 25 anos pra encontrar um jeito, mas enfim, acertou em cheio!

Têm me perguntado porque não tenho postado… Uma mistura de falta de tempo, falta do que dizer, sentir falta…

Sobre a falta de tempo… bem, voltei ao correrio de Salvador: pesquisa de campo, transcrições de entrevistas, reuniões etc. etc. Mas ao contrário do que possa parecer, aqui, a falta de tempo é positiva. Significa que o trabalho está andando, estou produzindo e a mente está ocupada.

Falta do que dizer… bom, eu acho que se é pra falar, que se fale algo útil, positivo, motivador. E nesse ponto, ando precisando mais ouvir que dizer.

Sinto falta… do Helder, principalmente, e de como era a nossa vida juntos… Mas também sinto falta da Raquel, da minha vidinha tranquila em Aveiro. Meu corpo está aqui, mas minha alma ainda anda pelo Porto. Agora mesmo, domingo, estou num comboio Porto-Aveiro… Acabei de ouvir “Próxima paragem, Avanca”.

Neste último post em Portugal, devo dizer que estes 9 meses geraram uma nova pessoa… A Jussara que volta leva a essência que trouxe, mas também é fortemente modificada pelas experiências que acumulou. Conhecer lugares, culturas e pessoas, procurar entendê-los e aceitá-los certamente  muda nossa órbita de referência. Mas muito mais é impactado: a percepção de espaço, de futuro e mesmo de identidade.

Deus, dê-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para enfrentar aquelas que posso e discernimento para distinguir umas das outras.

Dia 7, 22h30 – chegando em solo brasileiro, Salvador

Dia 8, 9h30 – chegando em solo gaúcho, Porto Alegre

Dia 9 – em solo sertanense, casa da dona Célia

Dia 11 – chegando em solo mané 😉

Dia 16, 15h – definitivamente em terras soteropolitanas.

Desculpem aí, mas dessa vez me adiantei e vou ser a primeira a dar-me os parabéns 😛

Ju, vou começar dizendo que te curto muito. Sim, apesar das tuas paranoias, inseguranças e tantos outros defeitos, tens algo que admiro muito: tua capacidade de acreditar. Acreditar no outro, em dias melhores, em si própria. Essa fé inabalável é mesmo de admirar.

Também és do bem, leal, justa. Eu sei que isto muitas vezes te custa um preço caro. Mas admiro-a por não arredar pé dos teus princípios.

Por fim… e apesar de tudo que aconteceu nesses 36 anos (e só nós duas sabemos o que cabe neste “tudo”), guardas a menina do Petim, que sabe ser feliz pelo sol numa manhã gelada, com um abraço de quem ama, com uma guerra de almofadas 😉

Te amo, guria!