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Quando as crianças vão embora, quando o silêncio chega, eles começam a aparecer… Alguns vão chegando devagar, outros aparecem de repente. Outro dia, abri uma gaveta e o Jere saiu de lá, meio amassado, sacudiu o pó, deu-me um sorrisinho e foi falar com o Paulinho.
No início, eu achava que eram só lembranças, mas aos poucos percebi que existiam independente de mim. Fiquei assustada e liguei para a Mary. Felizmente ela estava muito bem. Enganei-me e engana-se quem pensa que fantasmas são de mortos.
Então, já que estavam todos aqui, tentei me aproximar, puxei conversa, mas invariavelmente, eles me ignoram. Alguns até me olham, fazem um esforço, mas vejo que não me veem ou não me reconhecem. Outros me veem, mas com tal desdém que até acho que preferiam não reconhecer. Semana passada, perdi a paciência e explodi: “Se não querem falar comigo, por que estão aqui?!” Numa rara ocasião em que obtive alguma resposta, o Rocelito apontou o dedo bem no meu nariz: “Porque você nos trouxe aqui!” Ainda tentei argumentar que nem todos, afinal a Regina de 16 anos, magérrima e com cabelos longos, não era eu exatamente que tinha trazido, mas ele já estava emburrado sentado lá fora e não me deu ouvidos. Fora ele, no entanto, os outros parecem muito à vontade: a Sandra e a Pati tornaram-se boas amigas e toda vez que me aproximo, disfarçam e caem fora. Já estou com ciúmes. Também há casais inusitados: peguei o Nei e a Luziene num beijo cinematográfico, preparei um escândalo, mas me contive, considerando o ridículo da situação.
Mas ontem a noite foi demais: abri a porta de cozinha e me deparei com todos sentados ao redor da mesa, jogando canastra. Puxa, por que não me chamaram?! Resolvi abrir o jogo: “Olha só, eu também prefiro a Ju que vocês conheceram, ta bom?! Concordo que ela era mais decidida, mas esperta, mais corajosa, mais forte, mais…”. Foi quando a Adriana olhou para a pessoa a sua frente e disse: “Ju, se você não estivesse aqui, podia jurar que ouvi tua voz lá de dentro”. Levei um susto ao ver a Jussara de vinte e poucos anos, os cabelos num grande rabo de cavalo, os dentes tortos, uma espinha no queixo. Virou pra mim e sorriu um sorriso tão sincero que eu já não seria capaz. Tive impulso de abraça-la, mas o Pasquim latiu e me distraiu. No segundo seguinte, todos haviam desaparecido.

15/02, 4h38 da manhã – sou acordada por um bêbado descornado berrando no meio da rua :S Pensei em pôr em ação meu arsenal de ovos voadores, mas algo me chamou a atenção no meio da ladainha… Apesar daquela enrolação toda de conversa de bêbado, ele falava de um portuga… Portuga?! Era isso mesmo? Pois, juntando os pedaços desconexos, consegui entender que a criatura afinal estava externando sua dor: havia sido trocado por um português. Pronto, já rolou uma certa identificação! Senão com o bêbado, pelo menos com o enredo. “Sim – disse baixinho de minha sacada – esses portugas são mesmo danados” 😛
5h14 e a ladainha a pleno vapor… pensei seriamente em levar um dicionário para ele, pq a essas alturas o vocabulário estava limitado. De qualquer forma, já tínhamos os personagens e argumentos bem definidos: o portuga era “o vagabundo” e a ex era “a otária”. O argumento principal: a otária iria sustentar o vagabundo. Bem, não dava para ouvir a versão da mulher (ela, afinal, entrou em cena), mas fiquei pensando que, de qualquer forma, entre um suposto vagabundo e um barraqueiro???
Contudo, apesar da insônia forçada, tive uma ponta de dó da criatura. Ele ainda a amava… Repetiu tantas vezes “Eu não gosto mais de vocêêêê” que ficou evidente a dor que sentia.
5h31 Várias janelas abertas e ninguém chamava a polícia. Talvez pq ela não viria mesmo (1ª noite de carnaval!), talvez pq gostassem do circo (mas às 5h da matina?!), talvez pq o carnaval seja mesmo o período socialmente aceito para exorcizar publicamente os demônios. E ninguém me avisa?!
Enfim, como ninguém fazia nada e o bêbado tinha um fôlego invejável, às 5h45 São Pedro derrubou uma chuva torrencial! As janelas foram se fechando, o bêbado afogado (no álcool, na dor, e agora na chuva) subiu a Oito de Dezembro a passos largos. Talvez estivesse mais leve: menos um demônio a lhe pesar nas costas.

Você tem 28 anos, trabalhou desde os sete: debulhando milho na roça, cuidando de criança, etiquetando preços sem parar (lembram do período inflacionário?), estagiária, professora, bibliotecária… Vinte anos depois pensa “chega, vou relaxar na Bahia”. Larga emprego-casa-carro-família-amigos e vai querer ser pesquisadora com uma bolsa do governo. No primeiro semestre você descobre que tem que ter dedicação exclusiva, mas não quer dizer que o Estado vai bancar a sua façanha (a de querer fazer ciência neste País). Pela primeira vez você pensa que fez uma cagada em inventar esta história de mestrado. “Vou desistir”. Deus, que é um cara muito gozador, faz aparecer uma bolsa do nada. Bom, vamos pular a parte de procurar lugar para morar, se achar na cidade, descobrir que baianos (como gaúchos, cariocas, maranhenses) também são sete-um, mudança de móveis, assistir aulas, dar aulas, natação, ufa! Acabou o primeiro semestre. Entre mortos e feridos, dois trabalhos por entregar. O primeiro: parto normal. O segundo: a fórceps, mas sai. Segundo semestre começando. Mas já! Nem acabei os trabalhos do primeiro! Problema teu, cara-pálida. Metodologia de pesquisa: Kuhn, Bacon, Locke, Descartes, Kant, Marx. Tecnologia da Informação e da Comunicação: “Com qual livro da bibliografia vamos começar?” “Estes três para próxima aula, sim?”. Informação e Gestão do Conhecimento. Pesquisa Orientada. Seminário de Pesquisa em Andamento. 4 horas por disciplina na semana, com as leituras prontas. Ah, não esqueça que você ainda dá aula em duas instituições porque só com a bolsa, aquela que Deus deu uma forcinha, você tem que escolher entre ter energia elétrica ou água. E você achava que ia relaxar na Bahia! Hahaha! Pela segunda vez, você pensa que fez uma cagada em inventar esta história de mestrado. Mas Deus é manhoso, lembra? Você tira dez de cara no primeiro trabalho, teus alunos adoram tua aula e você já fez amigos. Pronto, não tem volta. Mas e a saudade? O que você faz com a saudade? Como aquele pequeno corte no dedo e tudo pega ali, tudo te faz lembrar! Bom, aí não tem jeito: você pega uns versos do tio Mário e vai pra praia do Porto da Barra. Mas hoje é quarta-feira e você tem que fazer isto e mais aquilo e aquele outro! Desculpe, gaúcho/a é guerreiro, sim, mas tem algo a que ele não pode resistir: um pôr-do-sol no Guaíba, no Porto da Barra e os versos do Quintana…

Essa lembrança que nos vem

Essa lembrança que nos vem às vezes…

Folha súbita

Que tomba

Abrindo na memória a flor silenciosa

De mil e uma pétalas concêntricas…

Essa lembrança… mas de onde? De quem?

Essa lembrança talvez nem seja nossa,

Mas de alguém que, pensando em nós, só possa

Mandar um eco de seu pensamento

Nessa mensagem pelos céus perdida…

Ai! Tão perdida

Que nem se possa saber mais de quem!

Mário Quintana

agosto de 2003

Por Louise Anunciação

Deus certamente, como tudo mais, tinha um objetivo muito definido em mente ao “eleger” os educadores.
E assim, o posicionou na linha de frente da vida de tantos…
Você é uma estrada que guia e orienta, que clareia e contribui. É o educar formal que transcende muito além da sala de aula.
À você, minha maior gratidão e meus mais orgulhosos PARABÉNS!!!!!

Qualquer caminho

É apenas um caminho

E não constitui insulto algum

– para si mesmo ou para os outros –

abandoná-lo quando assim ordena o seu coração.

Olhe cada caminho com cuidado e atenção.

Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias…

Então, faça a si mesmo,

E apenas a si mesmo uma pergunta:

“Possui esse caminho um coração?”

Em caso afirmativo,

O caminho é bom.

Caso contrário,

Esse caminho não possui importância alguma.

Carlos Castañeda

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…
Fonte:
QUINTANA, Mário. Esconderijos do tempo. Porto Alegre: L&PM,1980.

Tantas vezes sinto vontade de morrer que já não sei se estou viva

Tantas vezes sinto vontade de chorar que as lágrimas já se recusam a rolar

Tantas vezes sinto vontade voltar que já não sei quando é hoje

Mas tantas…

E tantas vezes sinto vontade de viver, sorrir e ir em frente

que quando vejo já é amanhã

e esqueci daquelas tantas outras vezes.

22jan.1999

23h30min

As folhas caem

As lágrimas caem

O mundo caiu

Preciso reerguê-lo!

Para quê?

“Tudo passa sobre a terra.”

O meu medo é que quando

tudo isso passar

eu seja um ser que

já não sabe amar

O peito dói neste final de tarde

enquanto as folhas caem.

21fev.1995

18h45min

Caminho por ruas que não conheço

a procura de coisas que não sei

Espero por surpresas que não acontecem

ou, ao menos, uma esperança do além

As pessoas são apenas,

não mais que personagens de minha tragédia

que não sabem para onde vão

Somos, enfim, peças desta mesma engrenagem falida

Eu, mais uma perdida na multidão.

17out.1993

23h28min